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Estudante de direito, jogador de futebol quando a dor nas costas permite e um liberal radical
A Direita Conservadora precisa ler Edmund Burke

Uma confissão e uma crítica ao Olavo de Carvalho

19/08/2019 08h32

Eu confesso: flertei com o conservadorismo. Na verdade, flertei com o Olavismo, sua versão mais radical; pois conservador político eu de fato sou. O meu maior influenciador intelectual já foi o Olavo de Carvalho. Li “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota” e fiquei impressionado com como alguém conseguiu “prever” com tanta eficiência e assertividade o que aconteceria no Brasil. Então, passei a acreditar fielmente nas análises do Olavo; nada fora delas, contra elas ou além delas. Sim, eu quase fui Olavista.

Depois assisti algumas vídeo-aulas do professor, ainda mais radicais, e odiei. Nesse ponto, confesso, a coisa começou a sair da linha. Olavo tentava – e ainda tenta – construir uma nova sociedade, com base nos seus valores e anseios pessoais, mascarando-os de conservadorismo. Passaram, Olavo e seus asseclas, a defender teses revolucionárias, como o Artigo 142, intervenção popular no Congresso Nacional, guerra contra a mídia e a garantia da governabilidade via manifestações populares. Todas soluções rasas e fáceis para problemas muito complexos. Difícil resistir, não é?

Entretanto, essas soluções desviam-se totalmente dos princípios fundamentais do conservadorismo político: prudência, moderação e manutenção das instituições. Três pilares substanciais para um conservadorismo real, legado do filósofo e político irlandês Edmund Burke.

O radicalismo das ideias Olavistas entrou em confronto direto com a minha essência. Até onde eu poderia ir, ou estaria disposto a ceder, em nome de uma idolatria? Estaria disposto a ir contra meus ideais e até mesmo contra a razão? Como no caso da relatividade, supostamente refutada pelo guru tupiniquim? Aceitaria, então, virar um revolucionário, alguém que não se importa com os meios, mas apenas com os fins? Tudo isso para manter a ideia de “direita verdadeira e pura”?

Isso me incomodou muito. Nesse momento, decidi pular fora dessa ala da direita.

É claro que existem excessos, mas na mente do guru do ultraconservadorismo, prudência não serve para nada. Na verdade, ele a trata como um empecilho. Uma vez que, sendo prudentes, somos necessariamente céticos; e se somos céticos, não idolatramos ninguém. A moderação é uma consequência da prudência; é analisar, como bem disse Burke, a água após a efervescência, quando já se acalmou. Para assim, conseguir ver a fundo. E, somente após uma análise cuidadosa, tomar uma decisão. Somando-se à prudência e à moderação, vem a manutenção das instituições, que permite a evolução eficaz da sociedade.

Além desse primeiro afastamento, tive recentemente minha cisão mais profunda com o Pensador da Virgínia e seu grupo. Dessa vez, por um comportamento político: o maniqueísmo, a visão binária do mundo e da política dividida entre bem e mal. Nos moldes da “verdadeira” direita brasileira: nós, os puros encarregados de salvar a pátria, versus eles, os traidores comunistas meretrizes do centrão. Isso me parece perigoso, já que renega a política, modo conservador de mudar o país. Vide definição: “habilidade no relacionar-se com os outros, tendo em vista a obtenção de resultados desejados”. Agora me parece claro que o discurso dos “verdadeiros” direitistas busca a revolução, sem abrir mão de nada. Algo que todo conservador, assim como eu, se arrepia ao ouvir.

“É um erro popular muito comum acreditar que aqueles que fazem mais barulho a lamentarem-se a favor do público sejam os mais preocupados com o seu bem-estar.” Edmund Burke