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Professor de Filosofia, violinista, coordenador do MBL Bahia e organizador do debate "Os EUA e a Nova Ordem Mundial" (Vide Editorial).
A diplomacia de Carlos Bolsonaro, o “pitbull”

Carlos Bolsonaro quer convencer o público da existência de um odioso ataque orquestrado ao governo por parte do MBL

21/01/2019 19h59

Ontem, o filho mais nervoso do presidente – quem será? – resolveu publicar um tweet nada amistoso, no qual ele ataca as “prostitutas do sistema”, os canalhas, os oportunistas, os homens malvados que mentem para o povo, “venerando” Dória, Rocha e Alckmin (?) (veja aqui). Ora, não é preciso ser nenhum grande exegeta para notar que o ataque tem um alvo certeiro, embora não nos cite nominalmente, obedecendo à velha estratégia das fofoqueiras dissimuladas. Concluo que ele tem em vista o nosso próprio movimento, já que o MBL apoiou Dória e Rocha, tendo sido o único grupo de direita a tê-lo feito, em momentos diversos da corrida eleitoral. Surpreende o nome de Alckmin junto com os outros dois, pois o único aval que este último recebeu do MBL, eleitoralmente, se expressou na crítica arrasadora feita pelo Kim (veja aqui).

No segundo turno, fomos ao tabuleiro de novo: ajudamos um político a quem Carlos Bolsonaro talvez considere oportunista, já que apoiado por pessoas tão vis: Jair Bolsonaro, por cuja eleição fizemos a campanha-relâmpago pelo Nordeste, intitulada Jornada Patriótica, com o intuito de dar votos a Bolsonaro na região onde ele era mais fraco. Neste momento, estamos em outra campanha que favorece o governo: é a campanha #RenanNao. Visamos, assim, a dificultar a eleição de Renan Calheiros ao Senado, decerto um formidável empecilho para se fazer uma política limpa no legislativo. Mas, indiretas maldosas têm um péssimo senso de justiça. Sabe como é, meu caros, PSDB, MBL, estratégia das tesouras, “sistema”, “oportunistas”… essa conversa mole, da qual estamos mais carecas do que Carlos Bolsonaro em saber.

A retórica do “pitbull”, como o pai carinhosamente lhe chama, não é muito variada. Preguiçosamente unitemático, ele usa a mesma fórmula básica sempre, que consiste numa pequena cadeia de implicações: x criticou Bolsonaro, logo x está com o sistema, logo x é a falsa direita. Ou então, x não elogiou Bolsonaro, logo x está com o sistema, logo x é a falsa direita. A essa dupla fórmula se resumem todos os ataques. Porém, à medida em que o tempo passa, ela se torna menos crível. Se ainda não parece, com vinte dias de governo, a tendência é essa, malgrado a certeza do pitbull que a mordida é a melhor diplomacia.

Como tive ocasião de sublinhar no artigo “Incoerências bolsonarianas, ou: eu sei o que vocês fizeram no versão passado”, um dos motivos de tensão presentes no governo Bolsonaro reside na necessidade de agir pragmaticamente ao mesmo tempo em que preserva as expectativas criadas na militância. Anseios nada modestos as alimentam: a destruição do sistema, o fim radical da “velha política”, caracterizada por práticas patrimonialistas. Por conta dessas aspirações, muitas vezes expressas de maneira confusa, caminhos reformistas que passassem pela construção de consensos partidários foram facilmente estigmatizados. Não surpreende que tenha sido Carlos Bolsonaro o principal responsável por atacar quaisquer aproximações com partidos tradicionais, seja por qual razão fosse, interpretando as atitudes (dos outros, é claro) na base da mesma fórmula universal, ligeiramente modulada: x falou com PSDB, logo x está com o sistema, logo x é a falsa direita. Essa disposição beligerante deu tremenda dor de cabeça para o MBL, pois tínhamos de negociar com vários partidos a coalização do impeachment, com uma parcela grande da militância de direita criticando tais negociações.

O apoio do PSL a Rodrigo Maia na Câmara, assim como a presença de figuras de confiança do próprio Alckmin no governo Bolsonaro (veja aqui) instaura um estado de perene incoerência entre palavras e atos. Pode-se tentar remediar a situação dizendo que existem razões pragmáticas para o governo agir assim. Admitimos de bom grado. Apenas nos preservamos o direito de dizer o seguinte: o discurso de campanha deveria ter sido corretamente calibrado, mormente quando usado para atacar os outros ao criticar a formação de consenso, diálogos e coalizões, ou seja, fazer política. Discursos de campanha não devem ser sopesados na balança marota da dupla medida: “ah, eu posso negociar pragmaticamente, já você, se faz o mesmo, é uma prostituta do sistema”.

Diante disso, o que faz Carlos Bolsonaro? Vem com o mesmo papo furado: os “oportunistas”, que “estão com o sistema”, “Alckmin”, essa velha cantilena… Contudo, quem está costurando aliança com Rodrigo Maia é o PSL. Quem tem figuras de confiança de Alckmin no governo é o presidente Bolsonaro. Ou não é?

A razão da ira do pitbull, creio eu, é a cobertura que fizemos sobre o caso do irmão dele. Voltemo-nos aos fatos: o que fizemos em todo o processo foi noticiar o caso, bem como cobrar as devidas explicações de Flávio, apontando onde parecia haver subterfúgios (as fugas do Queiroz, p. ex) sem, em nenhum momento, desprezar o contexto geral dos relatórios do COAF. Estes relatórios apontavam irregularidades em diversos outros partidos. Foi o MBL, seguramente, o grande denunciador da hipocrisia da mídia de esquerda, ao noticiar exclusivamente a movimentação de Flávio Bolsonaro, deixando de lado a do PT, PDT e outros partidos, cujas somas eram, inclusive, mais vultuosas. Eu mesmo tive ocasião de escrever a respeito do assunto, expondo a esperteza maliciosa da esquerda; o artigo pode ser consultado em dois minutos nesse portal provando, portanto, a equanimidade no tratamento da notícia. Agora mesmo Flávio Bolsonaro deu uma explicação convincente do assunto, e deve, portanto, resolver essa pendência na justiça, de acordo com aquilo que se espera dele. Nada mais justo.

Carlos Bolsonaro quer convencer o público da existência de um odioso ataque orquestrado ao governo por parte do MBL, quando o que sempre existiu é a constituição de uma necessária base crítica. Uma base crítica apoia e age a favor do governo (como na campanha do #RenanNão, assim como no firme apoio às reformas, que parte do PSL ameaçar não apoiar), porém se permite apontar erros e fazer cobranças. Foi o que fizemos no caso de Flávio, de Maia e do PSL na China. Para o filho mais nervoso do presidente, essa posição é coisa de isentões perigosos, de gente da “falsa direita”. Se fizemos críticas no curtíssimo período do governo, abundam elogios nesse mesmo período limitado. Trata-se, pois, de um critério mal aplicado, posto observar somente as críticas, além de involuntariamente cômico, visto não existir lei canônica para expulsar os hereges. E se houvesse talvez Carlos Bolsonaro fosse a falsa direita, e o MBL, a verdadeira. Já pensou o plot twist?

Quando Carlos usa um padrão duplo tão descaradamente assim, é preciso aceitar que ele o faz com algum cálculo, do contrário o suporíamos lunático. Esse cálculo se baseia em uma atitude perigosa: o abuso da fé.  O abuso da fé provém da segurança inadvertida na profunda ascendência do bolsonarismo sobre a direita, bem como na boa vontade que temos – todos nós temos – na condução do país pelo Presidente. Ele se vale disso para tentar calar a boca dos discordantes quando lhe convém, apontando-os à execração pela chantagem emocional, como a dizer: eles estão torcendo contra Bolsonaro, torcendo contra “a direita”, vão deixar, vão deixar? Assim, inúmeras pessoas, uma vasta massa, começa a enxergar as coisas desse modo, e a se indispor contra esses discordantes – mesmo que eles façam críticas modestas entremeadas de muitos sinais de aprovação – pressionando-os com acusações falaciosas.

O grande problema dessa abordagem se chama prazo de validade. O abuso da fé pode prosseguir por um tempo, mas, em condições democráticas, é difícil mantê-lo, na medida em que para isso se faz necessário apelar a uma alta dose de comprometimento da massa. Quando se envereda por certos caminhos, pode ser tarde demais para retroceder. Tenho absoluta certeza que o pitbull tem recursos. A mordida ainda é forte. Mas, até quando?