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Escritor de meia dúzia de artigos, comentarista eventual do MBLNews.
A Babel política entre pessoas que falam a mesma língua

Somos mais de 200 milhões de analistas políticos

17/09/2019 20h41

O brasileiro é um tipo interessante. De tempos em tempos se torna especialista em alguma coisa, conforme célebre frase de Machado de Assis: “de médico e louco todo mundo tem um pouco”. Também é conhecida a frase que o Brasil é um país com 200 milhões de técnicos de futebol. Aos poucos, com o surgimento de meios de informação velozes através da internet, nos tornamos especialistas em tudo.

Na política, um caso atraiu a atenção pública, a ação penal 470, conhecido como “mensalão”, protagonizado pela atuação do ex-ministro Joaquim Barbosa. Tudo aquilo que o brasileiro desconfiava sobre a política foi trazida à lume pelo caso, que recebeu uma cobertura imensa da imprensa, atraindo milhares de pessoas para discussão política. A partir de então, apesar de o brasileiro estar sempre à procura do assunto do momento, foi introduzido em no mundo do debate político. Hoje é dito que o brasileiro sabe a composição do Supremo Tribunal Federal, mas não sabe indicar de cabeça a escalação da seleção nacional.

O acirramento do debate combinado com os desastres políticos econômicos sob a condução do governo petista alimentou a divergência com destaques de grupos opostos, que desaguou nas campanhas eleitorais de 2010 e 2014. Em sequência, um novo caso criminal da políticos de proporções inimagináveis escancarado pela operação “lava-jato” sob a condução destemida do ex-juiz Sérgio Moro fixou novos paradigmas, como a consciência de sujeição de todos à lei e a intolerância a condutas não republicanas, especialmente as corruptas. No meio do caminho ainda tivemos um processo de impeachment. Uma explosão de discussões sem fim entre pessoas que não ouvem uma palavra, por meio de ferramentas poderosas de comunicação que a humanidade nunca tinha visto.

O posicionamento político com envolvimento popular é extremamente salutar para o amadurecimento do debate público nacional, mas precisamos nos livrar da sanha arraigada na alma brasileira de ser apenas palpiteiro contumaz, emitindo opiniões, sem qualquer espécie de reflexão.

Alcançamos um nível inimaginável de discussão com as novas ferramentas de comunicação, chegando um nível de emitir a opinião sem, ao menos, ter o conhecimento do fato a ser debatido. Há um açodamento generalizado e inexplicável para nos posicionar e manifestar para em sequência buscar elementos para confirmação.

Isso atrai o problema do viés de confirmação, aliado à exposição às chamadas “Fake News”. A esquerda ainda sofre do problema do “virtue signaling” que exige que se posicione para corroboração da sua sensibilidade e consciência moral, sem que os fatos em si tenham pouco significado ou mesmo expressem outras verdades.

Aos poucos, as pessoas formulam suas redes de informação particulares que confirmam as suas tendências e posições, fomentando ainda mais o isolamento de ideais e polarização.

Não é por acaso que pessoas habilitadas para emitir análises e conclusões em áreas de dedicação estejam tão desprestigiadas, enquanto os jornalistas ou comentarias de notícias alcancem tanta audiência. Há um público ávido pelo último comentário do fato mais recente.

Não há dúvidas que a abertura do debate é um enorme ganho inicial para a sociedade, mas os efeitos do vício na forma de obtenção de informação e discussão, nos torna prisioneiros por meio tempo da manipulação política e prejuízo das relações.

Construímos até agora uma babel entre pessoas que falam a mesma língua.

Em política, especialmente em ciência política, a REFLEXÃO e CONTEMPLAÇÃO são características imprescindíveis para entendimento e compreensão dos rumos e ações. O debate produtivo exige o conflito de teses e a acumulação de informações para fornecimento de elementos para formação de convicções.

Difícil dizer que sejam deixadas de lado as paixões políticas, mas a convicção não pode preceder a informação.

Esse processo desnudará políticos calhordas, falsos filósofos, especialistas de auditório e outras figuras que hoje tomam o cenário político nacional. Caso contrário, o brasileiro está conscientemente optando por ser gado, diferenciado apenas pela marca do ferrete dos seus ídolos políticos.


A guerra cultural ou a revolução podem ser apenas meios de submissão que conduzem às massas para o curral ideológico.

O isolamento é consequência da independência, que resulta da verdadeira virtude que dá o direito de estar certo, prescindindo da validação coletiva. Nelson Rodrigues é um incompreendido do seu tempo, que desagradou os mais diversos representantes políticos, que lhe rendeu o direito de ser eterno na alma brasileira, de ser razão, quando muitos não entendiam, por não se amoldar aos padrões precariamente definidos.

Me valendo mais uma vez de frases popularizadas:


“Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar”.

Me despeço do sanatório virtual para desfrutar da companhia desse grande gênio brasileiro, que ainda tem muito para nos dizer:

“A grande, a perfeita solidão exige a companhia ideal.”