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Professor de Filosofia, violinista, coordenador do MBL Bahia e organizador do debate "Os EUA e a Nova Ordem Mundial" (Vide Editorial).
5 pontos para um programa de direita

Uma contribuição preliminar para o debate sobre o dilema atual da nova direita

25/06/2019 14h00

Há dois tipos de problemas que mantém perplexas as fileiras conservadoras e liberais. O primeiro tipo decorre do caráter hegemonista do bolsonarismo. Formadores de opinião do bolsonarismo desejam uniformizar a direita em torno de duas diretrizes: a recepção acrítica dos atos governamentais e a submissão estrita às teses de Olavo de Carvalho. Quem não admite isso, finge por ser parte interessada ou é um observador realmente muito desatento. Para aqueles que resistem a essa uniformização, o hegemonismo bolsonariano é um problema grave. Mas, há um segundo tipo de problema, que não pede licença às brigas internas da direita.

O segundo tipo de problema é mais geral. É o pau que dá em Chico e em Francisco. Atinge a todos. Atinge a direita como campo político. E aparece, a bem dizer, em razão da carência de duas coisas fundamentais à sobrevivência da direita como força política relevante: um projeto político positivo de grande horizonte e a formação de quadros técnicos para enfrentar os desafios da administração pública brasileira. Para vencer esse segundo tipo de problema, aliás conectado com o primeiro, devemos cumprir algumas tarefas. No esquema simples que eu delineio, a título de contribuição preliminar para o debate, são cinco os trabalhos de Hércules:

Ampliação do mercado editorial: Como já expliquei em artigos anteriores, a literatura hoje divulgada pela direita provém de duas matrizes. Uma delas é a literatura divulgada originalmente pelo Instituto Liberal (Mises, Hayek, Hoppe, Bohm-Bawerk), mais tarde acrescida pelas contribuições, na mesma linha, do Instituto Mises, do SFL, dos vários youtubers e subgrupos libertários. Essa literatura reúne os expoentes econômicos clássicos do liberalismo, libertarianismo e neoliberalismo, com ênfase especial nos austríacos, de acordo com a orientação originária do IL. A outra é a literatura divulgada por Olavo de Carvalho, que inclui Eric Voegelin, René Girard, Mário Ferreira dos Santos, Roger Scruton, Bernard Lonergan, Leo Strauss, Constantin Noica, Vladimir Tismaneanu, Andrew Lobaczewski, etc. O que temos geralmente ou vem de uma ou de outra fonte. Tertium non datur.

Ocorre que não inventamos a América do conservadorismo. Para além dessa literatura, temos outros horizontes bibliográficos necessários para a formação conscienciosa da direita brasileira, dos quais destaco cinco: a) a tradição liberal e conservadora brasileira: Eduardo Prado, Jackson de Figueiredo, a primeira fase de Alceu Amoroso Lima, Joaquim Nabuco, a Escola do Recife, as políticas realizadas pelos partidos Liberal e Conservador. Isso é conhecido mas pouco lido. Desperta quase nenhum interesse. Contudo, uma construção brasileira da direita deve recuperar, evidentemente, autores brasileiros. É um tanto irônico um conservadorismo político que não liga para a sua tradição política b) o liberalismo social: O liberalismo social compôs a formação ideológica do ex-presidente Fernando Collor e de José Guilherme Merquior, seu ministro, e um dos nossos mais notável liberais. Foi estudado por Paim e Kujawski, mas continua uma lacuna nos estudos da nova direita c) os conservadores continentais clássicos: a anglofilia do conservadorismo brasileiro nos faz ignorar autores conservadores que não são ingleses: J.G.Herder, Goeze, De Bonald, Adam Müller, Gentz, De Maistre, Donoso Cortés são nomes inexistentes, não tendo despertado tampouco o menor interesse. Esta é uma falha grave, já que, historicamente, a fonte principal do pensamento liberal e conservador no Brasil é continental, especialmente, francesa e portuguesa, e não inglesa d) conservadores americanos: Para bem ou mal, basicamente todos os problemas da nova direita brasileira são reatualizações de querelas do conservadorismo americano. Contudo, faltam-nos muitas peças do mosaico: Ramson, Daniel Boorstin, John Hallowell, Bernard Iddings Bell, William Buckley Jr. (uma ausência notabilíssima no panorama brasileiro), Willmore Kendall, Frank S. Mayer, obras fundamentais dos federalistas e founding fathers. Entenderíamos melhor nossa situação contemporânea se a visão que temos da formação da direita dos EUA fosse mais completa e) novas correntes políticas: neorrepublicanismo, o renascimento da teologia política, eusarismo, nouvelle droite francesa, entre outras vertentes. São importantes, hoje, nos EUA e na Europa, então é conveniente se atentar para isso, pois as tendências históricas mundiais nem sempre seguem nossas impressões locais.l

O horizonte de traduções em língua portuguesa é uma floresta eternamente virgem. Mas, fazer traduções não será suficiente e nem mesmo me parece o primeiro trabalho a ser realizado. Antes disso, precisamos de artigos, ensaios, notas, remissões, vídeos-aulas, para que os nomes passem a circular na direita, despertando interesse do público. No decurso desse processo, será necessário traduzir e publicar os livros, o que exigirá a sinergia do mercado editorial, de tradutores e de estudiosos. Felizmente, o mercado editorial da direita, apesar de limitado, é nossa maior conquista cultural, então ele tende a responder bem. Os problemas desse ponto, portanto, são menos agudos que os demais. Para resolvê-los, é preciso encarar o segundo problema, mais complexo.

Criação de revistas de cultura e periódicos especializados: Apesar do vigor do mercado editorial de direita, há poucos estudos de fôlego sobre os próprios autores já conhecidos. Essa carência contrasta com a proliferação de trabalhos jornalísticos e de comunicação de massa (pequenos jornais, mídia alternativa, youtubers) em número, alcance e força muito maiores do que a esquerda atualmente possui. Assim, não é descabido afirmar: somos mais fortes na divulgação de massa, porém mais fracos na produção teórica. Poucas revistas culturais surgiram e as que surgiram tiveram impacto muito limitado. À memória, me vêm somente estas: Revista Concreta, Revista Nabuco, Vila Nova, Dicta e Contradicta. Essa situação, note-se, contrasta com a predominância da esquerda nas comissões editoriais de revistas de cultura e periódicos universitários, em volume imensamente maior. Uma simples consulta a lista de periódicos pode mostrar a diferença. É claro que caracterizar esses veículos como sendo veículos de esquerda não é exato. São periódicos universitários, simplesmente. Entretanto, como sabemos, a esquerda tem a maioria consensual na produção das ciências humanas; por conseguinte, ela tem um domínio bibliográfico dos periódicos acadêmicos. Para equalizar as forças, é necessário criar uma cadeia de periódicos acadêmicos de direita e de revistas culturais, através dos quais seja escoada a produção. Além disso – e esse ponto é fundamental – a existência dos meios estimula a criação. É difícil para alguém que não encontra meios de publicação achar um motivo para escrever longos estudos sobre temas eruditos, que irão parar na gaveta ou serão lidos por um público afeito a outro tipo de literatura.

Um projeto de poder de longo prazo: Tendo ampliado o espectro intelectual, tanto na recepção ativa dos autores quanto no número e variedade deles, é preciso formular um projeto político para a nova direita. O atual projeto de poder da direita consiste em, basicamente, três negações: a) a negação do legado petista e seu consequente desmonte b) a negação da corrupção e o esforço por eliminá-la c) a negação da crise econômica e o esforço para vencê-la por meio de políticas liberalizantes.

Os três pontos são problemáticos. A força da negação do legado petista depende do sentimento antipetista das classes médias; contudo, este sentimento irá se arrefecer com o passar do tempo. É natural. O segundo, a luta contra a corrupção, encontra limites na visão anti-institucional vigente. Isto porque a corrupção não pode ser reduzida de forma consistente sem uma reforma institucional profunda, que preserve e ao mesmo tempo restaure as instituições democráticas. Já a aposta do governo é casuística; ele faz a aposta na Lava-Jato em si e no combate aberto à institucionalidade. Finalmente, a terceira negação, a negação da crise, repousa em doutrinarismo liberal pouco afeito a pensar as especificidades da situação nacional. Certamente, Paulo Guedes é um homem bem intencionado. Contudo, ao contrário da maioria dos meus amigos, não tenho esperanças desmedidas quanto a ele. Os problemas brasileiros são profundos demais para doutrinarismos liberais livrescos. Deste projeto político simbólico e abrangente, deve vir o seguinte:

Um conjunto de pautas políticas claras. Tendo delimitado o horizonte positivo de ação, e absorvido dialeticamente essas três negações, o terceiro ponto é formular um conjunto de pautas políticas claras. O que desejamos? Queremos voto distrital puro, misto ou como está? Como serão as candidaturas? Como serão as regras de formação dos partidos? Defenderemos modelos de governança baseados em quais tradições? Qual será a postura brasileira na política externa? Como será nossa diplomacia? Como será o sistema de saúde do Brasil? O transporte? Qual o projeto nacional para a educação? Tudo isso precisa ser pensado, ponto por ponto. Mas, para refletir nessas questões precisamos de capital intelectual-administrativo. Assim, precisamos de líderes e escritores trabalhando nisso, assim como de especialistas, técnicos e pessoas com experiência na administração pública. Ao reuni-los, são imprescindíveis: a) o instrumento de diálogo – grupos de discussão, colóquios, seminários, jornadas de políticas públicas, e b) produção de documentos consensuais, que reflitam a dinâmica desse diálogo historicamente construída. Mas ter as ideias não é suficiente. É preciso implementá-las, o que nos leva ao quinto ponto.

A formação de quadros competentes da administração pública. Grosso modo, eles são de dois tipos, dos quais se exigem conjuntos diferentes de habilidades. O primeiro são quadros políticos. O segundo, quadros exclusivamente técnicos. Para o primeiro caso, é necessário transferir e colocar pessoas de confiança na administração. O problema aí é como aquele problema metafísico do ovo e da galinha. Ou o conto do Barão de Munchausen, que tentava emergir do lago puxando os próprios cabelos. Essas pessoas devem ter experiência, mas como eles vão ter a experiência necessária sem que estejam nos cargos? Obviamente, é impossível. Logo, é necessário criar mecanismos de ingresso inicial na máquina pública dos melhores talentos da direita. Cada partido ou movimento existente deve ter a consciência dessa imperiosa necessidade, e, desejando cumpri-la com perseverança, selecionar os melhores talentos. Esses talentos, contudo, precisam ter metas e objetivos claros, sob pena de caírem no carreirismo. Essas metas devem vir dos pontos 3 e 4. Para isso, é preciso elevar o nível de atuação dos políticos de direita e fazê-los buscar a articulação política necessária para formar quadros em cargos nos quais seus talentos possam servir à direita. Fazer barulho e aparecer é engraçadinho e coisa e tal, porém, a longo prazo, significa pouco. É preciso enfrentar a gestão pública com maturidade. Não é simples. É mais recomendável, portanto, que comecemos com cidades e administrações menores, cujos problemas são menos complexos, em geral, e cuja possibilidade de fracasso – que sempre existe – impacta menos na imagem da direita.

Como se pode perceber, os cinco trabalhos de Hércules (pois, à semelhança da lenda, são heróicos e difíceis) atuam em sinergia. Cada ponto alimenta os demais e todos eles devem ser atacados ao mesmo tempo – embora, do ponto de vista lógico, exista uma relação de prioridade e preeminência dos primeiros para os últimos. Mas, já que atuamos historicamente, é preciso desenvolver várias frentes simultaneamente.

Caso nada disso seja feito, sinto muito, amigos, a tendência da direita é caminhar a passos largos para a sua dissolução. Não parece ser hoje o caso. Temos um presidente, temos governadores mais ou menos alinhados, temos massa, temos jornalistas. Ocorre que o princípio do declínio raramente fica patente quando o declínio principia. O que é importante, neste e em outros casos semelhantes, é distinguir o essencial do acidental. Tendências históricas que não se baseiam em firmes alicerces passam. Não será diferente conosco.