Blog do Renan Santos
Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL.
Ameaça de Bolsonaro é vazia; militantes percebem injustiça do presidente
Tem bolsominion pronto pra abandonar o barco. Gado lava roupa em cadeia nacional

As redes sociais foram tomadas, ao longo da última noite (17), por um conjunto de mensagens cifradas e ameaças veladas por parte do presidente Bolsonaro e seus papagaios de pirata. Em uma sequência de postagens no twitter -- claramente redigida por seu assessor Filipe Martins -- o presidente prometeu tomar "todas as medidas legais possíveis para proteger a Constituição e a liberdade do dos brasileiros."

A postagem foi acompanhada de tuitadas similares tanto do assessor quanto de outros puxa-sacos, como o indefectível Hélio Negão. A linha adotada -- a do "chegou a hora", "it's time", "a onça vai beber água" -- denotava uma ação enfática -- quiçá militar -- por parte do presidente da república e sua caterva. O que depreendemos disso?

Papo Furado

Essa não é a primeira das ameaças e recados do presidente da república e seus militares de pijama. Recentemente, o Ministro Chefe do GSI, Gen. Augusto Heleno, emitiu nota atabalhoada sugerindo desobediência a determinações do judiciário.

Em outra oportunidade, Bolsonaro compartilhou live de Ives Gandra Martins, em que o jurista sugeria uma interpretação exótica do Art.142, que tornaria as Forças Armadas em espécie de poder moderador. Bolsonaro adorou a ideia.

Antes disso, o presidente já havia dito que "acabou, porra!", em resposta às investigações de Alexandre de Moraes sobre militantes bolsonaristas no inquérito das fakes news.

A sequência de bravatas demonstra um Bolsonaro muito interessado em manter a militância fiel, ainda que à base de discurso vazio. Avolumam-se ameaças à institucionalidade, tendo como premissa a ideia de que o presidente e as Forças Armadas "irão agir" diante de uma "injustiça patente" dos demais poderes.

É papo furado: sob pressão, Bolsonaro acena para uma base cada vez mais insatisfeita com o duplo padrão do presidente; para os filhos Jair faz tudo -- de acordão com STF até tirar Moro do governo. Para a militância, porém sua atuação é mais branda, a ponto do presidente estar pronto pra entregar a cabeça de Weintraub caso isso agrade a suprema corte.

A sensação de revolta só é aplacada pelo desânimo; percebe-se que uma militância construída sob discurso ofensivo e triunfalista -- a idéia de que "ninguém pode parar o povo", de que Bolsonaro é "antifrágil" -- gorou. Ninguém consegue manter por muito tempo a percepção (errônea) de que Jair "luta contra o sistema". Jair, na prática, finge lutar. Foi sempre, em vida, um fingidor.

É de se imaginar que sua militância fiel também seja composta de fingidores. São, na prática, malandros que ganham dinheiro e fama vendendo rebelião em redes sociais. Só esperavam ganhar junto da figura maior -- o presidente --, e não serem abandonados à própria sorte num inquérito que, cedo ou tarde, colocará muitos deles na cadeia.

A ameaça de Bolsonaro é vazia. Mas a de seus militantes não é. Caso não sejam atendidos, serão os próximos a abandonar o barco furado do bolsonarismo em busca de novas plagas -- e discurso radical -- que alimente sua base cade vez menor de seguidores.

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